4. INTERNACIONAL 10.4.13

1. O TEATRO DA GUERRA
2. MENTIRA CABELUDA

1. O TEATRO DA GUERRA
O ditador da Coreia do Norte s fala nisso, mas sua bomba atmica  estacionria e, se explodir, leva junto a ele e os generais.
DUDA TEIXEIRA

     O ditador Kim Jong-un, da Coreia do Norte,  um louco disposto a matar milhes de pessoas em uma guerra suicida ou est apenas blefando? Essa  a questo central a respeito das diatribes do tirano, que nas ltimas semanas declarou seu direito de ter armas nucleares, ameaou destruir a Casa Branca, posicionou msseis na direo da Coreia do Sul e do Japo e fechou o complexo industrial que o pas compartilha com o vizinho do sul. H dcadas o regime comunista da Coreia do Norte usa essas bravatas para chantagear os vizinhos e o Ocidente. Estaria o jovem Kim seguindo a tradio? Essa e outras perguntas so respondidas a seguir.

POR QUE KIM JONG-UN PARECE TO BRAVO? 
O av e o pai de Kim fizeram ameaas contra a Coreia do Sul, o Japo e os Estados Unidos ao longo de seis dcadas. As intimidaes fortalecem o poder domstico do regime militar e servem de vitrine para a venda de armas a pases prias, como o Ir. Ao final das tenses, com a promessa de se manter pacato, o governo norte-coreano recebe carregamentos de comida do exterior para aplacar a fome de sua populao submissa. Quanto mais alto o regime grita, mais arroz ganha em seguida. Nos ltimos dias, o tom subiu mais do que o normal, mas por outro motivo. Kim Jong-un, que assumiu o poder h um ano, quer mostrar quem manda em seu feudo. Precisa dizer que, apesar de sua cara de beb,  capaz de assustar os inimigos.  provvel que a crise termine em 15 de abril, quando se comemora o aniversrio de Kim Il-sung, seu av. "Nesse dia, Kim Jong-um vai dizer a seus sditos que seu pas  uma potncia nuclear e que no foi atacado porque todo o mundo o respeita", diz o cientista poltico americano David Maxwell, da Universidade Georgetown, em Washington.

H O RISCO DE O BLEFE SAIR DO CONTROLE E RESULTAR NUMA GUERRA?
A principal preocupao do governo da Coreia do Norte  garantir a sobrevivncia do regime. Como um conflito blico certamente levaria a uma troca de poder, as provocaes de Kim tm um limite. Prova disso  que, ao fechar o complexo industrial de Kaesong, os norte-coreanos no impediram que os gerentes do sul retornassem a suas casas. O risco  de as aventuras de Kim ultrapassarem a tolerncia da Coreia do Sul, que anda escassa ultimamente. O pas tem uma nova presidente, Park Geun-hye. Mas, ao contrrio de Kim, que est totalmente isolado, ela certamente consultaria os Estados Unidos antes de responder militarmente a uma provocao do norte.

QUAL  A CAPACIDADE DE A COREIA DO NORTE DESFERIR UM ATAQUE NUCLEAR?
nfima. O pas ainda no conseguiu construir uma bomba que caiba na ponta de um mssil. A que os norte-coreanos construram tem o mesmo tamanho da Little Boy, lanada pelos americanos sobre Hiroshima, na II Guerra, com peso de 4 toneladas. O mssil norte-coreano Nodong, capaz de alcanar Tquio, porm, s consegue carregar uma ogiva de no mximo 500 quilos. O jeito seria colocar o artefato nuclear em um avio bombardeiro. Aps cruzar a fronteira, a aeronave alcanaria Seul, a capital da Coreia do Sul, em trs minutos. Uma bomba de apenas 1 quiloton (a do ltimo teste norte-coreano tinha 7) poderia matar mais de 70.000 pessoas. Ocorre que os avies de Kim no so grandes o suficiente. A capacidade do bombardeiro H-5, de fabricao chinesa,  de 1 tonelada. Produzidas nos anos 60, essas velharias seriam facilmente abatidas pelo sistema antiareo da Coreia do Sul.

QUANTO TEMPO O CONFLITO PODERIA DURAR? 
Pelos clculos americanos, a Forca Area da Coreia do Norte seria destruda em dois dias. Em menos de dois meses, soldados e tanques estariam subjugados. Ainda assim, estima-se que 1 milho de vidas seriam ceifadas dos dois lados. O receio de que a China poderia entrar na pendenga ao lado da Coreia do Norte, prolongando a disputa, desapareceu. Foram tantas as bravatas que os chineses j comearam a pedir moderao aos tradicionais aliados. O governo de Pequim negou-se a mandar um diplomata de alto nvel a Pyongyang neste ano e tem apoiado as sanes econmicas contra a Coreia do Norte. "Uma pennsula unificada e amiga dos Estados Unidos seria uma m ideia para os chineses, mas pior ainda  um lder imaturo que no sabe fazer concesses", diz Daniel Wagner, diretor da firma de anlise de risco Country Risk Solution, em Connecticut, nos Estados Unidos, e especialista em Coreia do Norte.

H BRASILEIROS NO PAS? EXISTE UM PLANO DE EVACUAO? 
H apenas seis brasileiros vivendo na Coreia do Norte. Na embaixada brasileira em Pyongyang, que tem um abrigo subterrneo, moram o diplomata Roberto Colin, sua mulher, seu filho e um funcionrio administrativo. Tambm so brasileiras a esposa do embaixador da Palestina e sua filha. Em caso de emergncia, eles poderiam escapar de carro at Dandong, na China, numa viagem de quatro horas. Mas ningum est preocupado com essa possibilidade por enquanto.


2. MENTIRA CABELUDA
Jrme Cahuzac, especialista em implante capilar que virou ministro do Oramento da Frana, repetiu exaustivamente que no tinha conta na Sua. Pois , tinha.
MRIO SABINO, DE PARIS

     O metido a bonito Jrme Cahuzac, de 60 anos, formou-se em cardiologia e logo migrou para a cirurgia plstica. A especialidade que mora em seu corao  o implante capilar. Foi plantando folculos em calvos que ele fez fortuna, scio de uma clnica aberta com sua mulher, dermatologista, de quem est se separando h dois anos, num processo cheio de caarolas no armrio, como dizem os franceses. Cahuzac construiu em paralelo  lavoura de folculos uma carreira bem-sucedida no Partido Socialista. Elegeu-se prefeito da cidadezinha de Villeneuve-sur-Lot, conquistou uma vaga de deputado na Assembleia Nacional e, no ano passado, foi nomeado ministro do Oramento do governo Franois Hollande. Tudo parecia sedoso em sua vida, at Cahuzac protagonizar uma histria cabeluda que deixou a Frana arrepiada. Comeou em dezembro de 2012, quando o site de notcias Mediapart, terror dos polticos desonestos, revelou que, na dcada de 90, ele havia aberto uma conta na Sua. No  ilegal ter conta do lado de l dos Alpes, desde que seja declarada ao Fisco, mas Cahuzac jamais a registrou em seu imposto de renda. Notcia lanada no ar e reproduzida pas afora, ele negou que tivesse tido alguma relao com um banco helvtico. No Eliseu, o presidente Hollande convocou-o para perguntar, olhos nos olhos, se era verdade. "No'', respondeu o ento ministro. Na Assembleia Nacional, seus ex-colegas deputados indagaram, em plenrio, se a notcia procedia. "No". Ao vivo, na emissora BFM, a CNN francesa, olhos nos olhos outra vez, um reprter voltou ao assunto. "No e no", martelou Cahuzac, sem piscar. Quando, jurando inocncia, resolveu pedir demisso do Ministrio do Oramento, para "no comprometer o bom funcionamento do governo e da Justia", seus camaradas de partido saudaram a atitude republicana. 
     Na semana passada, confirmou-se que Cahuzac  um excelente especialista  na arte de mentir olhando diretamente para os interlocutores. Ao tomar cincia de que o Ministrio Pblico parisiense havia sido avisado pela sua contraparte em Genebra de que a Unio de Bancos Suos informara a existncia de uma conta dele no incio da dcada de 90, cujo saldo de 600.000 euros fora transferido, em 2009, para uma filial da instituio em Singapura, o ex-ministro procurou o juiz de instruo que acompanhava o caso. Confessou, ento, que havia aberto, sim, uma conta no declarada nesses parasos fiscais. Saiu do tribunal indiciado por "lavagem de fraude fiscal", crime pelo qual poder pegar cinco anos de cadeia e pagar multa de mais de 350.000 euros. No dia seguinte, Hollande, com cara de quem comeu tartar estragado, foi  televiso, para dizer que Cahuzac havia ultrajado a Repblica e que apertaria os mecanismos de controle do patrimnio dos seus auxiliares, bem como reforaria a independncia da Justia. O primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault declarou na Assembleia que Cahuzac enfrentaria tambm a prpria conscincia, alm do devido procedimento legal. O ex-ministro do Oramento, pasta responsvel por combater as sonegaes e fraudes fiscais, veja s a ironia, foi expulso do Partido Socialista. No bastasse o dinheiro, h a questo de sua origem. Desconfia-se que os milhares de euros lhe foram dados por laboratrios farmacuticos, em troca de lobbies no governo. Mas o indiciamento e o oprbrio no arrefeceram a tempestade. 
     O ministro das Finanas. Pierre Moscovici,  acusado de ser cmplice da mentira de Cahuzac. Diz-se, ainda, que Hollande sempre esteve a par da malandragem. A mentira de Cahuzac, no entanto, contaminou o discurso de todos os polticos  que j no gozavam de credibilidade por aqui. Em viagem oficial ao Marrocos, Hollande no cessou de ser interpelado sobre o assunto, e com uma agravante. O L Monde, com base em documentos reunidos pelo Consrcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em ingls), publicou a primeira de uma srie de reportagens sobre parasos fiscais que dezenas de jornais ao redor do planeta vm preparando, cada um sobre personalidades de seu pas, sob o nome comum de "Offshore Leaks". E estreou com gala. Revelou que o tesoureiro da campanha presidencial do socialista, Jean-Jacques Augier, tinha investimentos nas Ilhas Cayman, destino ensolarado de sonegadores e lavadores de dinheiro. Pego de surpresa em Casablanca, Hollande retrucou que as suas contas de campanha haviam sido aprovadas e, claro, que no sabia dos negcios de Augier. Pois , ningum sabe de nada tambm na Frana. 
     Depois do escndalo Cahuzac, a confiana em Hollande e sua trupe despencou de vez para os nveis do esgoto de Paris. Apenas 25% dos eleitores acreditam no que eles falam. Evidentemente, a crise econmica, denegada pelo Eliseu, contribui para escurecer a situao.  direita do espectro, o quadro no  melhor. O ex-presidente Nicolas Sarkozy foi indiciado, acusado de abusar da fragilidade de uma velhinha. Ela  Liliane Bettencourt de 90 anos, dona da empresa de cosmticos LOral. Escutas telefnicas e depoimentos de empregados, provenientes de uma investigao efetuada a mando da filha, que tentava retirar de Liliane a administrao da riqueza familiar, mostraram que, na campanha presidencial de 2007, Sarkozy esteve na casa da velhinha para apanhar dinheiro em espcie  e no declarado,  lgico. Nessa linha de igualdade e fraternidade, a sua ministra das Finanas, Christine Lagarde, atual diretora-gerente do Fundo Monetrio Internacional, teve seu apartamento vasculhado por policiais que investigam o favorecimento de Christine ao magnata Bernard Tapie, em 2008. Favorecimento, no, presente de Mame Noel. Ela deu um jeito de tirar da Justia e colocar em um tribunal de arbitragem privado a disputa entre o ento banco estatal Crdil Lyonnais e Tapie, em torno da Adidas. Tapie, que apoiou Sarkozy na campanha presidencial, queixava-se de ter sido passado para trs pela instituio na revenda de sua antiga empresa de material esportivo. Exigia 285 milhes de euros de ressarcimento  e levou a dinheirama. Os procuradores no se convenceram da lisura da deciso arbitral e puseram Christine no cadafalso judicial. Ela substituiu outro francs no FMI, o socialista Dominique Strauss-Kahn, depois que o stiro pegou uma camareira de um hotel em Nova York com a boca na (sua) botija. Recentemente, uma das namoradas de DSK, como ele  conhecido, lanou um livro em que o chama de "porco". No  o nico entre os polticos da Frana.


